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Educação, competitividade e o papel do jovem na sociedade moderna

13 de abril de 2016

VALTER TAMER

O psicanalista e professor universitário Valter Tamer acumula um histórico de décadas atuando no desenvolvimento de pessoas e organizações. Na entrevista abaixo, concedida a Isabelle Haubrich, aluna do curso de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá, ele fala sobre competitividade, sobre o papel do jovem hoje e questiona o modelo educacional vigente, propondo alternativas para uma educação que valorize o indivíduo e promova a expansão da consciência dos seres humanos.

  1. Qual é o papel da escola na formação de crianças, adolescentes e jovens?

A escola deixou de ser um centro de formação para ser um centro de informação. Ela tem se ocupado, estritamente, dos aspectos cognitivos do aluno cumprindo apenas o papel de fornecer conteúdo. E esse conteúdo, por vezes, é inútil e enfadonho. As dimensões consciencial, emocional, espiritual e moral do estudante são completamente ignoradas, até porque, os profissionais da educação não foram preparados para lidar com essas questões e nem mesmo com seus próprios conflitos e inseguranças. Nesse ambiente, a escola tem se mostrado incompetente para gerir as relações afeto-aprendizagem, aluno-aluno e professor-aluno. Na condição de espaço educativo, mais do que transmitir conhecimento a escola deve moldar o caráter do ​aluno para que ele tenha prazer na aprendizagem, reconheça a importância do outro, respeite a diversidade, seja consciente dos seus direitos e deveres, encontre o seu lugar no mundo e assuma o seu papel na sociedade.

  1. Como a disputa por vagas em enens e vestibulares interfere nessa formação?

​A competitividade é um conceito primitivo. Nós precisamos pensar a educação e a sociedade em termos coletivos, sistêmicos e colaborativos. Há lugar para todos e cada um de nós é importante no processo. É preciso preparar o indivíduo para desenvolver e dar o seu melhor, tendo a si mesmo como referência – não o outro –, para que ele encontre o seu próprio caminho. Quando cada um estiver comprometido com a sua qualidade pessoal, em desenvolver seu potencial máximo e atingir níveis extraordinários de realização todos poderão agregar valor à própria vida, à família e à sociedade. O boletim deveria ser o passaporte para a universidade, o aluno com um histórico escolar de bom aproveitamento estaria automaticamente apto para o ensino superior.​

  1. Como as escolas têm se adaptado a essa demanda por aprovação?

​As escolas particulares se transformaram em empresas e estão mais preocupadas com o lucro do que qualquer outra coisa, consequentemente, tratam o aluno como cliente. E ninguém quer aborrecer o seu cliente, não é mesmo? As escolas públicas, simplesmente, não reprovam. A aprovação a qualquer custo virou política de estado no Brasil. O jovem brasileiro chega às universidades sem saber escrever ou interpretar um texto e desconhece regras básicas do uso de concordância, pontuação e vírgula. As universidades brasileiras estão diplomando analfabetos funcionais. O slogan “Brasil: pátria educadora” é uma piada de mau gosto.

  1. Que efeitos essa pressão por resultados na educação provoca na sociedade?

A preocupação exagerada com o conteúdo e com as notas deu lugar a uma sobrecarga de tarefas e uma diversidade de exigências de foco duvidoso e objetivos nebulosos. Frequentemente, o aluno não sabe o que está fazendo, tampouco porque está fazendo. Essa falta de clareza e a ausência de desenvolvimento dos aspectos emocionais e comportamentais do aluno têm produzido indivíduos desmotivados, estressados, inseguros e despreparados para lidar com essa demanda. Obviamente, o resultado disso se observa nos contextos pessoal, social, familiar e organizacional.

  1. Como conciliar educação e preparação para a competitividade do mercado?

​Do jeito que foi desenhada e ainda é praticada a escola não faz sentido para os alunos e para a maioria dos educadores. A prova disso é a queda crescente no número de pessoas que buscam desenvolver carreira nesta área, a imensa taxa de evasão escolar e os inúmeros esforços feitos, em vão, para reter o aluno. Infelizmente, a escola atual está focada na informação, e não na conscientização e formação do indivíduo para a vida.

  1. Qual tem sido a participação dos educadores nesse processo?

Eles ficam entre a cruz e a espada. Devemos considerar que as escolas também são avaliadas pelo MEC e o critério utilizado é o índice de aprovação dos alunos. Se forem mal avaliadas, as escolas são descredenciadas ou perdem a clientela e são obrigadas a fechar as portas. Diante disso, muito embora os educadores, em sua maioria, questionem o modelo educacional são obrigados a se adaptar às regras impostas pelo Estado para esse mercado.

  1. Qual tem sido a participação dos pais nesse processo?

Na maioria dos casos os pais são meros pagantes e também se comportam como clientes. Eles não participam ativamente da vida acadêmica dos filhos e, quando resolvem se envolver, em geral, é para reclamar do professor ou da nota dada por ele na avaliação. É como se pais e escola estivessem em lados opostos ou tivessem objetivos diferentes. Recentemente, um amigo meu, diretor de uma escola para crianças e adolescentes, telefonou para o pai de um aluno pedindo que ele comparecesse à escola para tratar de assuntos relacionados ao filho. O pai retrucou: “Estou devendo alguma coisa? Então, não me aborreça porque sou uma pessoa muito ocupada.”

  1. Qual o impacto dessa mudança de foco na vida desses jovens?

​Desastroso. Inverteram-se os valores. A atenção está voltada para a aprovação em vez do aprendizado e consequente desenvolvimento do potencial do aluno. Pais e alunos unem os esforços para obter apenas a nota mínima para garantir o diploma. Moral da história: temos pessoas diplomadas e desqualificadas. Esse padrão de mediocridade vai acompanhar o indivíduo para o resto da vida. Provavelmente, esse jovem vai escolher uma carreira com foco no “quanto eu vou ganhar” em vez de “quanto eu vou agregar”. O impacto disso é sentido nas empresas que, apesar do bom currículo dos candidatos às vagas, sofrem com a dificílima tarefa de encontrar profissionais com inteligência emocional, habilidades interpessoais, comprometimento e excelência pessoal, e que compreendam o verdadeiro significado e valor do trabalho.

  1. Que propostas ou alternativas existem para essa situação?

​Mudar radicalmente o modelo educacional praticado no mundo, especialmente no Brasil, tirando o aluno da condição de coadjuvante e colocando-o como protagonista, como figura central. Uma boa alternativa é o modelo desenvolvido pela Escola da Ponte, um projeto de escola livre, onde os alunos estudam juntos, sem as clássicas divisões de séries e turmas, se divertem, utilizam os espaços externos e não estão presos às salas de aula, escolhem o que, como e com quem estudar.

  1. Você poderia citar algum exemplo de boa alternativa para esse problema?

Existem iniciativas muito positivas aqui no Brasil. O CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento​), em Belo Horizonte/MG, e o Projeto Âncora, em Cotia/SP, são projetos bem-sucedidos, desenvolvidos com base em modelos sociais e educacionais diferenciados, que têm prestígio e reconhecimento junto às suas comunidades.

1 Comentário

  1. Ricardo Galvão Macedo disse:

    Muito bom o artigo. Obrigado por compartilhar conosco.
    Infelizmente o tema não é discutido na devida profundidade e nas instituições que deveriam se preocupar com isso.
    Temos que ter a preocupação em complementar e acompanhar a educação de nosso filhos para que não se tornem pessoas medíocres. E o que pode ser pior, que eles se satisfaçam com isso e não busquem serem cada dia melhores.
    Abraços

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